Rótulos e as pessoas com deficiência
Sou contra rótulos, mas sempre acabo cometendo este erro imperdoável. Devo ser contra pelo fato de possuir uma deficiência e por ela descarregar sobre mim uma carga muito grande de preconceitos, que tem como conseqüência o rótulo.
É comum ouvir afirmações do tipo: ''Ah! ele é deficiente não pode jogar bola'', ''Ah! ele é deficiente, não pode transar'' ou mesmo ''Mas ele é deficiente, como vai trabalhar?''. Tais rótulos são conseqüências de preconceitos que as pessoas trazem intrínsecas em si e, por mania, acabam generalizando a todo um grupo.
Pode ser que realmente exista (como deve existir) pessoa com deficiência que não jogue bola, não transe e muito menos trabalhe, mas tais ''faltas'' ocorrem por dois possíveis fatores. Primeiro, devido a uma questão orgânica, ou seja, a deficiência impede de alguma forma que ela exerça tais atividades. Segundo, por uma questão social: por ser recriminado frontalmente pelas pessoas a sua volta.
Essa dificuldade de exercer tais tarefas devido a uma questão social se dá de duas formas: por uma discriminação frontal das pessoas ao redor. Exemplo: o rapaz com deficiência chega para paquerar a moça sem deficiência ou, o contrário, e recebe um não bem categórico pelo fato de ele ou ela ter deficiência e não por seus outros atributos. Há ainda uma discriminação velada que é exercida muitas vezes pela família (pelo paternalismo) ou pela sociedade em geral. Um exemplo: a mãe que não deixa o filho sair de casa ou os amigos que sempre tentam poupá-lo de fazer qualquer coisa, como levar uma mochila, ou amarrar o tênis.
Mas tais coisas, necessariamente, não acontecem com todas as pessoas com deficiência e é essa a grande questão. Muitos acreditam que ter uma deficiência impede uma moça ou um rapaz de fazer ou exercer qualquer coisa. E, o pior, entendem que sejam todos assim. Se por acaso uma pessoa com deficiência vence na vida, qual é a frase que se ouve frequentemente? ''Nossa ele venceu na vida, mesmo sendo deficiente'' ou, mesmo quando cometem um crime, ''nossa é deficiente, mas é um criminoso''. Ou seja, ter vencido na vida ou ser um criminoso não é um atributo ou um defeito visto naquela pessoa, mas sim a deficiência.
O interessante que isto está intrínseco em todos, até mesmo nas próprias pessoas com deficiência. Há alguns casos de deficientes que trabalham, têm uma vida sexual ativa ou mesmo praticam esportes (como jogar bola) que são alvos de discriminação dos próprios colegas. São pessoas que têm enraizadas em suas cabeças que são incapazes de exercer determinadas funções e assim desqualificam os que conseguem. Por quê? Pode ser por inveja, frustração, impotência. Assim, esse indivíduo acaba rotulando o seu companheiro, levando em consideração as suas próprias limitações.
E há também os exemplos contrários de rótulos. Pessoas com deficiência que têm uma vida normal e discriminam as que não conseguem, pois só as veem em sua ótica de ''pretensos vencedores''. O que precisa ser entendido é que as pessoas com os diversos tipos de deficiência têm as suas limitações, suas potencialidades e sofrem uma carga muito grande de preconceitos. São o tempo todo testadas até o limite para que se saiba até onde vai a sua capacidade, para que os ''ditos normais'' possam medir o nível de respeito por estes indivíduos.
Uma das grandes dificuldades das pessoas com deficiência hoje é serem tratadas como cobaias para daí, possivelmente, serem aceitas pela sociedade. E caso uma pessoa com deficiência cometa algum erro, sempre o rótulo vai aparecer.


0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial